segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Apresentação ao leitor

   A representação da mulher negra na literatura brasileira é historicamente marcada – ela foi, por muito tempo, predominantemente apresentada por escritores brancos a partir de uma ideologia machista, racista e patriarcal. A atenção, quando há uma personagem negra, tende a ser voltada para o corpo, para a procriação e para as diversas maneiras de exploração. A possibilidade de auto-representação não era possível no campo editorial nem mesmo para as mulheres brancas (ou não negras) até pouco tempo atrás (hoje o espaço ainda é restrito), o que impossibilitou que essa representação equivocada e estigmatizada da mulher negra pelo homem fosse combatida ou rompida. A verdade inegável é que ainda temos, em nossa cultura literária, as falhas de um período colonial e escravocrata.
Ao longo do tempo e das transformações políticas e sociais, as mudanças ocorrem no lugar do sujeito perante às construções históricas dos fenômenos. O lugar do qual a mulher fala, por exemplo, muda. E, consequentemente, o da mulher negra também. Isso quer dizer que, aos poucos, um espaço (até mesmo para a mudança de lugar), vai sendo ganho: a denúncia passa a ser factível, sem que o medo da reprovação aconteça. E por quê? Porque agora o leitor não é apenas o branco, que pode censurar e discriminar, mas também o negro ou a mulher negra. Aqueles que ascenderam socialmente o suficiente para poderem ler e interpretar obras de arte. Esse espaço possibilita uma aberta reflexão crítica que está intrinsecamente ligada à conscientização do ser negro – tanto do autor quanto do próprio leitor negro, num diálogo de identificação.
Esta antologia reúne composições de temática negra e de autoria feminina negra. Entendemos a literatura afro-brasileira como uma literatura que tem o negro como temática principal e discordamos da definição de literatura negra (ou afro-brasileira) de Ironides Rodrigues – que Octávio Ianni corrobora – a qual tem a autoria como critério: 

A literatura negra é aquela desenvolvida por autor negro ou mulato que escreva sobre sua raça dentro do significado do que é ser negro, da cor negra, de forma assumida, discutindo os problemas que a concernem: religião, sociedade, racismo. Ele tem que se assumir como negro (RODRIGUES, 1987, p. 118-119).

Acreditamos que a literatura afro-brasileira poderá, sim, ser escrita por autores não negros. Porém, os autores devem ser integrados ao que significa ser negro e aos problemas intrínsecos a essa condição, denunciando-os e procurando desconstruir conceitos hegemônicos da doxa. Deve-se ser consciente de que ter o negro como temática não significa reforçar discursos estereotipados acerca dele, e sim representá-lo como sujeito legítimo que busca retomar o seu espaço social:

À luz dessas observações, será negra, em sentido restrito, uma literatura feita por negros ou descendentes assumidos de negros, e, como tal, reveladora de visões de mundo, de ideologias e de modos de realização que, por força de condições atávicas, sociais e históricas, se caracteriza por uma certa especificidade, ligada a um intuito claro de singularização cultural.
Lato sensu, será a arte literária feita por quem quer que seja, desde que reveladora de dimensões peculiares aos negros ou aos descendentes de negros (PROENÇA FILHO, 1988, p. 78, grifos do autor).

O que não podemos deixar de observar é que o reconhecimento desses tipos de texto e autor poderá acontecer na medida em que ele for feito – e não são muitos os textos que nos servem de exemplo. Na maioria das vezes, quem melhor representa o negro é aquele que vivencia e assume essa condição. Constatamos isso em nossa pesquisa, que nos apresentou mulheres negras que usaram da sua experiência como matéria para a produção de uma literatura.

Pode-se concluir que na escre(vivência) das mulheres negras, encontramos o desenho de novos perfis na literatura brasileira, tanto do ponto de vista do conteúdo, como no da autoria. Uma inovação literária se dá profundamente marcada pelo lugar sócio-cultural em que essas escritoras se colocam para produzir suas escritas. Da condição feminina e negra, nasce a inspiração (EVARISTO,  2005, p. 54).

Principalmente após os Cadernos Negros, uma publicação coletiva  brasileira organizada pelo grupo Quilombhoje desde 1978, o negro (e também a mulher negra) vê a possibilidade de produzir literatura dignamente: deixar de ser apenas tema e ser também agente da produção. A literatura passa a ser caminho para uma reconstrução simbólica a partir da contestação e do questionamento – duplamente. Isto é, aqui estamos falando de duas espécies de preconceito, estamos falando de sujeitos que sofrem socialmente duas estigmatizações: a de gênero e a racial. Esses dois elementos atravessam não só as composições que escolhemos, mas também a obra das autoras selecionadas. As duas experiências são indissociáveis – a mulher negra sofre o preconceito de gênero e o racial simultaneamente, e jamais separadamente. Por isso, a auto-representação aparece como afirmação dessa identidade:  mulher negra.
Essa afirmação pode e é, muitas vezes, combativa. É desse ponto de vista, por exemplo, que Ellen Oléria e Elisa Lucinda se expressam. Ainda que suas experiências sociais e de classe distanciem-nas uma da outra, é a linguagem irreverente que as une, além da temática (“O meu cabelo crespo/Não ponho na chapa/Aguenta minha marra/Teu cartão não me paga/Minha ancestralidade no peito/ Eu não tô te vendendo”, em Ellen e “Porque deixar de ser racista, meu amor,/Não é comer uma mulata! em Elisa Lucinda). 
Em Carolina Maria de Jesus, temos uma linguagem escrita de acordo com uma norma não-padrão e isso, por si só, confirma a irreverência – mexe até mesmo com a linguagem usada pela elite branca: “Mas trata com cortêzia/ Mas tudo é ipocresia/ São rudes, e trapaçêiros". A representação também pode se dar através do ponto de vista de personagens reclusos, ainda que não vitimizados – as tragédias históricas que necessitam ser encaradas podem refletir-se em personagens amargos, silenciosos ou à beira da loucura, como neste trecho do poema “Espera”, de Beatriz Nascimento: “Um susto, muitos riscos/ Uma eterna ascensão/ Um lugar não tombado/ Nenhum traço de união”. 

Em se tratando de um ato empreendido por mulheres negras, que historicamente transitam por espaços culturais diferenciados dos lugares ocupados pela cultura das elites, escrever adquire um sentido de insubordinação. Insubordinação que se pode evidenciar, muitas vezes, desde uma escrita que fere as “normas cultas” da língua, caso exemplar o de Carolina Maria de Jesus, como também pela escolha da matéria narrada (Evaristo: 2007, p. 21).

Nossos critérios de seleção foram a temática e a autoria negra, o que nos abriu um leque de variações – nossas escritoras vêm de regiões diferentes do Brasil e escrevem em tempos diferentes. Na nossa reunião, aparece desde Ellen Oléria, cantora, compositora e musicista que produz atualmente, a Carolina Maria de Jesus, escritora mineira de origem humilde que teve o seu primeiro diário publicado em 1960. Porém, o que as une é o que mais encanta e importa: a conscientização do ser mulher, do ser negra e o uso da literatura como instrumento de reforma da realidade; uma literatura que confronta, definitivamente, o poder hegemônico.

É nessa potência que encontramos nossa justificativa para esta antologia. A força que fala através dessas vozes é o que importa no caminho longo que a sociedade deve percorrer. Afinal, a realidade atual ainda é estarrecedora. A literatura afro-brasileira ainda não entrou de vez no mercado, além de também não ter sido apresentada ao público de maneira a fazer um resgate exigido pela nossa própria descendência e história.