Santos, 06 de julho de 1949.
Poeta e Presidente da Casa de Cultura da Mulher Negra.
BRASIL PALMARES
Rostos com a imensidão do mar
sem pingos de desespero
negros
não mais fujões
libertam seu nome
recém- nascido
como árvore brotando flores
flores grávidas de frutos
sem cheiro de noite gemida
no peito movimento de força
e o sol fazendo a mistura
com a chama de zumbi.
Eu sou criola decente
não sou vil
estou nas cordas
em equilíbrio
de um Brasil
a minha cor apavora
essa raça agride ouvi dizer
não é nos dentes do negro
não é no sexo do negro
é na arte do negro
de viver
melhor dizendo
sobreviver
com essa coisa que arrasta
o tronco que tentam esconder
mas esses troncos existem
no conviver
os troncos estão nas favelas
vejo troncos nas vielas
nas moradias fedidas
nas peles sem esperança
nas enxurradas de não
no jogo das damas e reis
eu me perdi
nas rotas dos estiletes
nas celas e nos engodos
negro carretel de rolo
querem fazer um mundo
marginal crioulo
LUIZA MAHIN
Filha de gêge
na escravidão
Luiza Mahin
sofria os negros
Luiza de gêge
mulher em luta
todo dia toda noite
em espadas
Mahin dos Malês
Posição ao sol couraça
Luiza revolta a noite
Vermelho o chão da Bahia
QUERÊNCIA
Felipe, nêgo abusado,
teu sobrenome é Mathias
da raiz do Jabaquara,
mudavas dizendo odara
na festa inimigo chegava
bandeirinhas tremulavam
o couro do atabaque falava
berimbau dançava
e tu, Felipe?
Observava!
Tinhas o brasão da nobreza
sem desenho, sem papel.
A tua pele mostrava.
LEVANTE
nêgo chorará não
não chorará não
vão te pôr
PRA FAZER ESSE CHÃO
sei que teu mundo
é de guerra
nêgo bonito
tu não sabes
que força odara
tu tens de obá
teus pés amarrados
correntes de safado
qué te segurá
MERCADO DE TRABALHO
o povo foi para venda
o som do navio negreiro
mistura- se com ar
postes recordam tronco
senhores fazem leilão
agora salas de esperas.
CONTRA
só pra contrariar
eu sou negra diferente
para muitos indecente
só pra contrariar
abra a porta e ache a chave
descubra num cacto gente
só pra contrariar
veja na flor murcha nascente
só pra contrariar
espere o brotar da semente
só pra contrariar
TUMBA LELÊ
moços tiraram meu sangue
meu sangue real
tumba lelê
me levaram
para um Brasil
e declinaram
e machucaram
indignaram meu sangue
meu sangue real

Nenhum comentário:
Postar um comentário