Ellen Oléria

Brasília, 12 de novembro de 1982.

Cantora, musicista e compositora brasiliense. Ex- aluna da Universidade de Brasília e ganhadora da primeira edição do programa The Voice Brasil.



TESTANDO

Alô, alô, som. Teste.
Um dois três Testando
Eu? eu não domino a esgrima
Mas minha palavra, a minha palavra, a minha palavra é afiada e contamina.
Minha ginga, meu jeito, minha voz que vem do gueto
Minha raça, minha cara, tua cara à tapa
O meu cabelo crespo
Não ponho na chapa, aguenta minha marra
Teu cartão não me paga
Minha ancestralidade no peito eu não tô te vendendo.
Há quem batize minha postura pura malandragem
Mas minha superação foi com muita dificuldade
Não é contando por contar, não é por vaidade
Mas peito pra encarar a vida louca com coragem,
Não é pra qualquer um...
Minha mãe minha testemunha: o preço, o zelo, o descontentamento,
Muita frustração, sem inspiração, sem passe, sem pão...
É mãe... não se preocupa. Eu dou meus pulinho, eu dou meu jeito
Eu sempre me virei
E é claro, eu precisei de ajuda
Conhece a carne fraca?
Eu sou do tipo carne dura.
Tem gente boa no mundo, isso eu já sei. Também vi o lado violento dos que não temem a lei
Tanto faz lei divina. Tanto faz lei dos homi.
Não importa pôr roupa chique ou dar seu sobrenome.
A mulherada já sabe o cotidiano da rua: anoiteceu? Sozinha ce não tá segura.
Alô, alô, som. Teste....
Suor e choro. A noite é fria. Pra esses lance ninguém nunca está preparado.
Depois de um dia duro, meu corpo foi travado.
Assalto à mão armada.
Levaram o violão o microfone emprestado.
Eu chorei, eu chorei.
A bandidagem não acompanhou a estereotipia...
Eram Três garotos. Tipo de uns quinze anos. nunca vi na área esses garotos brancos.
Duas meninas loiras com boné cor de rosa reescrevendo as linhas da conhecida história...
Andando na rua de noite muita gente branca já fugiu de mim
A minha ameaça não carrega bala mas incomoda o meu vizim
O imaginário dessa gente dita brasileira é torto
Grita pela minha pele qual será o meu fim
Eu não compactuo com esse jogo sujo
Grito mais alto ainda e denuncio esse mundo imundo
A minha voz transcende a minha envergadura
Conhece a carne fraca?
Eu sou do tipo carne dura
Alô, alô som. Teste...
Tá ficando bom mas vai ficar melhor
Basalto que emana dos meus poros
Minha consciência pedra nesse instante
Basalto que emana dos meus poros
Minha consciência negra



ANTIGA POESIA

Salve! Halve! hey salve! hey salve!
Salve! Halve! hey salve! hey salve!
Minha nova poesia
É antiga poesia
Eu me fiz sozinha
Força feminina, ahahá
Escrevo sem ter linha
Escrevo torto mesmo
Escrevo torto, eu falo torto
Pra seu desespero!
É só minha poesia, antiga poesia
Repito, rasgo, colo poesia
Sem maestria, mas é a minha poesia
Eu não sou mais menina
A minha poesia é poesia combativa!
Eu entendi seu livro, eu entendi sua língua
Agora minha língua, minha rima eu faço
Eu já me fiz sozinha
Eu tenho mais palavras
Da boca escorrendo
Você disse que tá junto e eu continuo escrevendo
A planta é feminina, a luta é feminina
La mar, la sangre, em mi América latina
Meu desejo é o que, seu desejo não me defina!
Minha história é outra, tô rebobinando a fita!
Salve! Negras dos sertões negras da Bahia
Salve! Clementina, Leci, Jovelina
Salve! Nortistas caribenhas clandestinas
Salve! Negras da América latina
A baixa auto-estima da dona Maria
Da sua prima, da sua filha e sua vizinha
Isso me intriga, isso me instiga
E se você não entendeu o que significa feminista
Esquento a barriga no fogão, esfrio na bacia
Cuido do filho do patrão, minha filha tá sozinha
A mão tá no trampo, a mente tá na filha
Um monte de gaiato em volta ainda pequenina
Porque depois dos 40 é de casa pra igreja
É tudo é por ninharia, pretendente Jesus, o Messias
Tive que trabalhar, não pude parar
Guerreira estradeira, capoeira na ginga
Disseram pra neta que a vó era analfabeta
"O mundão não tá doido, acaba" mas ela não
Minha vó formou na vida e nunca soube o que é reprovação
Eis a questão
Se não me espelhou, não me espelhou
Não chamo de educação
Manhã d'água acende o nariz da esfinge
De racha tô cercado oiá Iemanjá vive
Aqui não tem drama ou gente inocente
Aqui tem mulher firme arrebentando as suas correntes
A vida toda alguma coisa tentou me matar e eu me refiz
Dandara acotirene
Salve! Negras dos sertões negras da Bahia
Salve! Clementina, Leci, Jovelina
Salve! Nortistas caribenhas clandestinas
Salve! Negras da América latina
Salve! Eu sei não é fácil chegar
Salve! A gente sabe levantar
Salve! Aonde eu for é o seu lugar
Salve! Permanecemos vivas
É por nós, por amor
Por nós amor
Por nós por amor



SOLTA NA VIDA

Medo da vida, desconhecido
Nina Simone no meu ouvido
Corro de atrevida, não esmorecida
Eu sou como o rolamento mortal do crocodilo
Bravura pura em mais de 70kg
Independente da cor do meu vestido
Esconderijo, creia. eu improviso, veja
Eu mesma faço a minha santa ceia.
Corre sangue bom na minha veia
Pacificamente violenta
Como aranha caranguejeira na teia
Eu canto pra que eu nunca esqueça
Pra que eu nunca esqueça
Pra que eu nunca esqueça
Burca, Marjane enxerga além desse viés
Lua, guarda o segredo das marés
Nua da cabeça aos pés
Luta, um desafio pra fieis
Patriotismo, civismo, nacionalismo
Xenofobismo, machismo, racismo
Um abismo chama outro abismo
Chama outro abismo
Chama outro abismo
E eu tô solta na vida
Eu tô solta na vida
Eu tô, eu tô, eu tô, eu tô
Felicidades, planos pra virada do ano
Todo dia é novo e eu vi que a vida na terra tá se acabando
Nunca fui disso, mas acradito
De vez em quando eu medito
Se existe destino não sei, axé não negocio
Nem sempre a morte chega com aviso
E eu tô ligada já conheci palma e vaia
E no cerrado asfalto é a minha praia
Saúdo a planta e os animais
Sabedoria samurai
E eu sei que gentileza nunca é demais
Há o que me deixa ainda emocionada
O vento, a saia. O vento subindo a saia rodada
A chuva que não para
E a blusinha dela tomara que caia
As árvores que contavam história arrancadas
A casa da gente invadida pela enxurrada
Sim eu já vi, se liga aqui.
Eu sobrevivi sem pena.
Só a caneta pra registrar
O que eu não esqueci.
E eu não esqueci que
E eu tô solta na vida
Eu tô solta na vida
Eu tô, eu tô, eu tô, eu tô
Tô solta na vida
Solta na vida
Tô solta na vida
Solta na vida
Eu tô, eu tô, eu tô.



PEDRO FALANDO COM O REFLEXO

Eu não posso deixar pra depois
Não sei o que está por vir
Se é loucura o que não tem razão
Sonho, logo sou louco, louco, louco!
Sonho, logo sou louco, louco, louco!
Você me diz que não se importa
E eu não to nem aí
Adiantando o meu lado
Eu vou cantar pra subir
(Eu vou cantar assim)
Durante a semana eu vou sempre pro trabalho
É sempre a mesma coisa, das 6h às 18h eu ralo
E nesse picadeiro eu sou sempre o palhaço
Mas é sexta-feira, só o cansaço
Eu to guardando pra curtir depois
RAP:
"Edifício, é difícil, na vida há obstáculos
Marmitas no andaime, abismo disfarçado
O louco caminho não me espanta, a estrada eu mesmo traço
Aí enraíza a ignorância, tem uma pedra no meu sapato
E da cultura, educação, não deixa marinar!
Nunca perca seu espaço jamais ceda o seu lugar
Alguém ja disse que o preto e o pobre são os "mané" da quebrada
E é nisso que alguns querem nos fazer acreditar
Abra sua mente pro que eu tenho pra lhe dizer
Faz tempo o tempo passa e não para de correr
Você é o pavio da bomba, escolha a melhor onda
Ah, o que falo não é lombra, não ponho palavra à toa
Falo sério pra você saber, a vida é pra se viver
Eu ponho o coração, corpo e a razão no que decidir fazer
E pensem o que quiserem pensar
Digam o que quiserem dizer: acredite em você."
(Não sei se é mentira)
(Mas não vou deixar pra depois)
(Não sei se é mentira)
(Mas não vou deixar pra depois)
(Não sei se é mentira)
Eu não vou deixar pra lá!
(Não sei se é mentira)
(Mas não vou deixar pra depois)
(Não sei se é mentira)
(Eu não vou deixar pra depois)
(Não sei se é mentira)
Eu não vou, não, não, não!



SENZALA (A FEIRA DA CEILÂNDIA)

A feira da Ceilândia te oferece o que quiser comprar:
Peixe, sapato, retrato, colar pra te enfeitar
Cinto da moda, o sinto da moda
Sinto vontade, grande necessidade de comprar
Roupa xadrez, meia longa, bota preta pra arrasar
Estilo colegial: brega, veste mal, vamos parar
Mulheres deem à cor o seu destaque
Esbanjem no batom e no esmalte
Muita roupa já é coisa de perua
Daqui a pouco tem gente andando nua
A feira da Ceilândia te oferece o que quiser comprar:
Peixe, sapato, retrato, colar pra te enfeitar
Cinto da moda, o sinto da moda
Sinto vontade, grande necessidade de dançar
Danço o axé, o pagode, o rock vai ter que esperar
Quarteto, quinteto estrangeiro é o som que vai rolar
Guarde seu velho cd na estante
Agora você vai curtir um funk
Lambada som da hora na senzala
Melhor dançar agora porque passa
A feira da Ceilândia te oferece o que quiser comprar:
Peixe, sapato, retrato, colar pra te enfeitar
Cinto da moda, o sinto da moda
Sinto vontade, grande necessidade de observar
Onda do norte, coisa de nobre, vamos copiar
Desde filme Titanic a sanduíche
Virgindade lá é coisa do passado
"E se voltar à moda o quê que eu faço?"
Brasil não é que há algo que te estrague
Mas santo de casa não faz milagre
A feira da Ceilândia te oferece o que quiser comprar:
Peixe, sapato, retrato, colar pra te enfeitar
Cinto da moda, o sinto da moda
Mas o que você precisa mais na feira não se pode encontrar:
Razão, consciência, senso, inteligência, uma cabeça pra pensar
Isso só no shopping lá do centro você vai achar
Se tiver dinheiro pra comprar
Boa aparência pra entrar.
Não tenho dinheiro pra comprar
Hoje eu vou voltar pra feira
A feira de Ceilândia
Hoje eu vou voltar pra feira
Lá tem pastel e tem caldo de cana


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